Trajetória & Historial

O AND Lab e o Modo Operativo AND, tal como hoje se estruturam, emergiram como consequência da extensa trajectória de investigação-inquietação de Fernanda Eugenio desde os anos 2000, marcada por colaborações intensivas, deslocações e desvios, entre a pesquisa académica estrita e uma investigação singular e cada vez mais indisciplinada dos usos artísticos e políticos da etnografia como ferramenta circunscritiva-performativa.

Esta pesquisa, sendo processual, sintetizou-se de diferentes modos e com diversas nomenclaturas ao longo desses anos – Sistema É-Ou-E, Modo de Vida E, Etnografia Recíproca, Etnografia como Performance Situada, Reprograma, Reparagem, Pensacção – até adoptar a actual nomenclatura Modo Operativo AND, firmada durante uma fase de colaboração com o coreógrafo português João Fiadeiro.

A primeira formulação do Modo Operativo AND surgiu em 2002, com o pano de fundo da antropologia, no âmbito da sua pesquisa de doutoramento, realizada, entre 2002 e 2006, no Museu Nacional, Rio de Janeiro, Brasil. Seguiu-se uma aproximação ao campo das artes performativas e uma transversalização crescente do AND enquanto conjunto de ferramentas, que levou à emergência de uma vasta rede de colaboradores e interlocutores das mais diversas áreas: sem prejuízo da relação com as práticas artísticas (performativas, cénicas e visuais) e com os estudos de performance, foram ganhando especial relevo os cruzamentos com as práticas de cuidado e mediação na psicologia (em particular na clínica transdisciplinar e de território), na pedagogia, no serviço social, no serviço educativo de museus e centros culturais, mas também no activismo, na arquitectura e no urbanismo táctico. Surgiram ainda prolíficas conversas e aplicações do Modo Operativo AND em áreas tão diversas quanto a informática, a agricultura e a alimentação ou as neurociências.

A colaboração de longa duração entre Fernanda Eugenio e João Fiadeiro, iniciada em 2009, sob a forma de iniciativas pontuais entre Brasil e Portugal, foi formalizada num projecto produzido pela estrutura Real e apoiado pela dg-artes, entre 2011 e 2014. Assim, num primeiro momento, entre 2011 e 2012, o AND Lab foi, sobretudo, um projecto de investigação: simultaneamente projecto de pós-doutoramento em Antropologia de Fernanda Eugenio no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e iniciativa em colaboração com a estrutura Real. Nessa altura, João Fiadeiro tinha suspendido o seu trabalho enquanto autor, acolhendo este “laboratório de etnografia recíproca”, proposto por Fernanda Eugenio, no qual a ética AND por ela pesquisada viria a ser colocada, sistematicamente, em conversa com o método da Composição em Tempo Real (CTR), desenvolvido pelo coreógrafo desde os anos 90.

Datam deste período as conferências-performance Secalharidade (2012) e O Jogo das Perguntas (2013), que procuraram sintetizar a filosofia habitada do Modo Operativo AND. Foram anos de experimentação intensiva, durante os quais os dois chegaram a pensar que as suas ferramentas – o Modo Operativo AND e a Composição em Tempo Real – formariam um só conjunto de práticas. Em Março de 2013, ainda neste enquadramento, os dois fundaram o AND Lab como centro de investigação, num movimento que o fazia passar de projecto a lugar. A primeira sede do AND Lab foi no Atelier Real, em Lisboa – sede também da Companhia Real, de João Fiadeiro.

Entretanto, durante o ano de 2013 e, principalmente, em 2014, foram-se evidenciando – em especial com o regresso de João Fiadeiro a um trabalho autoral – as profundas diferenças entre o Modo Operativo AND e a CTR: o primeiro foi confirmando a sua inclinação para um uso transversal e pronunciadamente político, comprometido com uma ética praticável no plano da vida quotidiana; a segunda foi reencontrando o seu lugar sobretudo como ferramenta de composição coreográfica e metodologia de autor.

O progressivo regresso de João Fiadeiro aos palcos foi visibilizando a prerrogativa estética da CTR e explicitando o quanto esta envolve um tipo de corpo privilegiado (veloz, pronto e sem memória) e é informada pelo imaginário do coreógrafo. O Modo Operativo AND consolidou-se enquanto ética e modo de vida – a estética, existindo, é sempre, e tão somente, consequente de uma ética – e como conjunto de ferramentas de uso colectivo aberto a qualquer tipo de corpo, matéria ou inquietação. Ainda que possa ser utilizado na prática artística, o MO_AND compromete-se sobretudo com uma aplicação no plano das micropolíticas de reciprocidade que sustentam a vida (em) comum.

O uso intensivo e os interlocutores que se foram juntando à volta das duas práticas ajudaram a clarificar estas diferenças. Cessou o tempo de colaboração entre os dois, preservando-se o reconhecimento da riqueza que esse período trouxe a ambas as pesquisas. Ainda hoje são partilhados alguns procedimentos, entre os quais o jogo de tabuleiro, embora cada pesquisa lhes dê um uso distinto. Também parte do vocabulário actual praticado por João Fiadeiro na CTR foi alimentado pela filosofia AND.

A partir de 2015, a plataforma AND Lab, sob a direcção somente de Fernanda Eugenio, tornou-se itinerante: saiu do Atelier Real e foi acolhida por diferentes estruturas da cidade de Lisboa. Entre meados de 2015 e meados de 2016, tomou a forma de associação cultural sediada na mesma cidade. Actualmente, realiza a maior parte das suas actividades nas dependências do equipamento municipal Polo Cultural das Gaivotas, além de terem sido abertos três núcleos locais do AND Lab no Brasil - em Curitiba (desde Novembro de 2017), no Rio de Janeiro (desde Janeiro de 2018) e em São Paulo (desde Agosto de 2018) e um na Espanha - em Madrid (desde Junho de 2018). A rede de interlocutores do AND Lab e do Modo Operativo AND, já antes transversal, concretiza-se, nos últimos anos, em projectos e iniciativas cada vez mais variados, num percurso de espalhamento também geográfico – entre Brasil, Chile, Argentina, Portugal, Alemanha, Itália, Áustria, França, Espanha, Grécia, República Checa, Reino Unido, EUA e Vietname.

[English]

History & Trajectory

The AND Lab and the Modus Operandi AND, as structured today, emerged as a consequence of Fernanda Eugenio's extensive research since the beginning of the 2000s, marked by intensive collaborations, displacements and deviations, between strict academic research and a singular and increasingly undisciplined investigation of the artistic and political uses of ethnography as a circumscriptive-performative tool.

This on-going research has been synthesized in different ways and with different names throughout the years - System IS-OR-AND, Mode of Life AND, Reciprocal Ethnography, Ethnography as Situated Performance, Reprogramme, Reparagem, Pensacção – until it stabilized in the current terminology Modus Operandi AND, which emerged during the collaboration with the Portuguese choreographer João Fiadeiro.

The first formulation of Modus Operandi AND dates back from 2002 and the period (2002-2006) Fernanda Eugenio was working on her doctorate in anthropology, at the National Museum of Rio de Janeiro, Brazil. The proximity with the field of performative arts that followed and, also, the continuous confirmation of AND as a set of tools with transversal use has led to the emergence of a vast network of collaborators and interlocutors. Without prejudice to the relationship with artistic practices (visual and performative) and performance studies, other possibilities gained ground, such as intersections with care practices and mediation in psychology (in particular transdisciplinary and territory clinic), pedagogy, social service and education service in museums and cultural centres, as well as activism, architecture and tactical urbanism. There have been other prolific conversations and applications of the Modus Operandi AND in areas as diverse as computing, agriculture, food or neurosciences.

The long-term collaboration between Fernanda Eugenio and João Fiadeiro begun in 2009, initially materialised through occasional initiatives between Brazil and Portugal and later formalized as a project produced by Real, with the support of DGArtes (2011-2014). Between 2011 and 2012, AND Lab was mainly a research project: simultaneously a postdoctoral project in Anthropology carried out by Fernanda Eugenio at the Institute of Social Sciences of the University of Lisbon and an initiative in collaboration with Real. At that time, João Fiadeiro had suspended his work as an author, hosting this laboratory of reciprocal ethnography proposed by Fernanda Eugenio, where the ethical approach of AND was placed in systematic conversation with Real Time Composition (RTC), a method developed by the choreographer since the 90s.

The lecture-performances Secalharidade (2012) and The Game of Questions (2013) belong to this period and sought to synthesize the inhabited philosophy of Modus Operandi AND. Those years were of intensive experimentation, during which the prevailing conviction was that both tools – MO_AND and RTC - could together form a single set of practices. In March 2013, still in this framework, Fernanda Eugenio and João Fiadeiro founded AND Lab as a research centre: no longer just a project, AND Lab was now a place. It was based at Atelier Real, in Lisbon – also seat of João Fiadeiro´s company Real.

However, during 2013 and even more so 2014, the differences between the MO_AND and RTC became more evident, especially with the return of João Fiadeiro to an authorial choreographic work. The Modus Operandi confirmed its inclination towards a transversal and pronounced political use, committed to an everyday ethical practice. Real Time Composition rediscovered its place mainly as a tool of choreographic composition and author’s methodology.

The gradual return of João Fiadeiro to the stage gave visibility to the aesthetic prerogative of RTC, making explicit how much it involves a privileged type of body (fast, ready and without memory) and how much it is informed by the choreographer's imagery. Modus Operandi AND is consolidated as ethical approach and way of living – aesthetics being, always and only, consequence of ethics -, a set of tools for collective use, open to every matter or body. Although pertinent to artistic practice, MO_AND is committed to its applicability in the plane of the micro-politics of reciprocity that sustain (the) common life.

The intensive use and the interlocutors who came together around the two practices helped to clarify these differences. The time of collaboration between the two ceased but the recognition of the richness that this period brought to both researches has been preserved. Some procedures are shared, even today, including the board game, even if by giving them a different use. Part of the current vocabulary used by João Fiadeiro in RTC has also been fuelled by AND philosophy.

From 2015, under the direction of Fernanda Eugenio, AND Lab became itinerant: it left Atelier Real and was welcomed by different structures in the city of Lisbon. Between mid-2015 and mid-2016, it came to a formal existence as cultural association. Currently, most of its activities in Portugal are carried out in the premises of Polo Cultural das Gaivotas, in addition to three local clusters of AND Lab in Brazil - Curitiba (since November 2017), Rio de Janeiro (since January 2018) and São Paulo (since August 2018) and one in Spain - Madrid (since June 2018). The transversal inclination of the ever-growing network of AND Lab and MO_AND interlocutors has been reinforced as it encompasses diverse projects and initiatives also spreading geographically among Brazil, Chile, Argentina, Portugal, Germany, Italy, Austria, France, Spain, Greece, Czech Republic, United Kingdom, USA and Vietnam.

 
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